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18/04/2010

3º Domingo da Páscoa, ano C - Liturgia do Céu e da Terra

A grande liturgia do Céu, que constitui o modelo ideal da liturgia cristã no dia de Domingo, é celebrada diante do trono de Deus e do seu Espírito por vinte e quatro anciãos e quatro seres vivos (símbolo da humanidade e das forças cósmicas). As primeiras aclamações dirigidas a Deus são sucessivamente atribuídas ao Cristo que aparece como "Cordeiro", vivo, mas com os sinais de sua paixão. O coro de louvor, que inclui as criaturas espirituais do céu e todos os seres vivos e inanimados do cosmos, reconhece ao "Cordeiro Imolado" as próprias prerrogativas de Deus.

O livro do Apocalipse, revelação de Jesus nos seus poderes de ressuscitado, descreve no trecho que hoje ouvimos, a entronização do Cristo e a adoração que a ele tributa o universo. Jesus é definido "o Cordeiro Imolado", porque é em virtude da sua obra salvífica que é digno de louvor. O hino, que provém da liturgia cristã, é ao mesmo tempo anúncio da glória do Ressuscitado ao mundo.

O louvor cósmico ao Cristo e à sua salvação pascal mostra que uma ordem simplesmente "natural" é uma utopia. A natureza, que espera a revelação dos filhos de Deus, está incluída na redenção. O homem, que se faz voz de todas as criaturas, é, de agora em diante e para sempre, o homem novo, que, em Cristo, já está glorificado. Assim, não existe um Deus impessoal, mas o Pai de Jesus Cristo, constituído por ele, Senhor dos homens e do cosmos. Como todo dom vem a nós por Jesus Cristo, assim  todo louvor e súplica sobe, por ele, ao Pai. A oração cristã, na expressão oficial, dirige-se diretamente ao Pai, chama-o Deus e Senhor, interpondo a meditação do Senhor nosso Jesus Cristo; mas nas formas populares, ela se dirige ao Cristo "como Deus", honra-o como Senhor da glória, e manifesta, com segurança, a sua fé na Cabeça que precede e a guia. A Igreja terrestre (militante), unida a Cristo, que intercede por nós no Céu, sabe que participa, desde agora, da liturgia perene, através da Ação de Graças, o Santo Sacrifício da Missa. 

Pode surgir uma tentação para a comunidade cristã, devido a essa visão cósmica da fé e de glorificação de Cristo redentor: a de empenhar-se numa restauração sobretudo terrena do reino de Cristo; a de impor a presença da Igreja em todos os campos, suplantando as legítimas autonomias e as justas distinções entre a ordem profana e a ordem sobrenatural. Esta tentação consiste em querer reduzir diretamente da Escritura uma política - e uma única - conforme a própria exegese.  Já prevendo isto, na narração de São Lucas, nos Atos dos Apóstolos, o trecho da Liturgia de hoje descreve a coragem com a qual os apóstolos, movidos pela força do Espírito, dão testemunho de Cristo. O anúncio é para eles uma necessidade; devem escolher entre obedecer a Deus e obedecer aos homens. Escolhem Deus e são ultrajados pelos homens,, mas, em conformidade com a palavra de Jesus, alegram-se na tribulação. A morte, a ressurreição e o aspecto salvífico dos acontecimentos de Páscoa são o conteúdo de sua mensagem.

Mas tudo isso é bem concluído com o Evangelho de hoje, em que os poderes de Cristo passam a Pedro. A esta luz do primado, não são inúteis dois dados fortemente simbólicos: uma única barca, símbolo da única Igreja e um só rebanho, um só pastor.

Este é um convite também para nós hoje que passamos por forte momento de tentação: pensar que "as portas do inferno prevalecerão sobre Pedro". Este perigo é irreal! É promessa do Senhor e jamais se desdirá! Isto é, "vencerá a verdade e o amor fraterno". Do contrário, estaremos como São Tomé, incréus à realidade dos fatos. Neste tempo em que os "tripulantes desta barca" (povo de Deus) tendem a pular para fora dela, devido às "fortes ondas", sejamos nós verdadeiras "âncoras" que, fortalecidos pela fé e pela força do Ressuscitado, soergamos "a Barca" até "o Porto Seguro", ou seja, o Reino dos Céus, escatologicamente antecipado, já aqui e agora!


frei Cleiton Robson, OFMConv. T 
http://reflexoesfranciscanas.com.br 
http://twitter.com/freicleiton

Colunista
Frei Cleiton Robson Leitor instituído; estudante do curso de Teologia (3º ano), no ISB-DF; Licenciado em Filosofia (UCB); Bacharel em violão clássico (EMB) e teoria musical.
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